

Para variar um pouco, hoje sugiro um belíssimo romance histórico:
Um Príncipe Quase Perfeito
Maria João da Câmara
(Sopa de Letras)

A história leva-nos até ao século XVII. Charles Joseph é o príncipe que qualquer mulher poderia desejar. Nobre e sensato, bonito e charmoso, marca a diferença entre homens daquela época pelo respeito e admiração que nutre pelas mulheres, pela forma como as trata, como as ama.
O príncipe flamengo casa-se em Lisboa com a filha do marquês de Arronches, D. Mariana. Rapidamente ganha prestígio e fama, sendo muito admirado por todos em Lisboa. Tudo parece correr maravilhosamente quando um misterioso acontecimento na corte vienense vai mudar para sempre a vida de Charles e da encantadora D. Mariana.
O livro é envolvente e cativante, pintando um verdadeiro quadro da sociedade daquela época. A única coisa que nos atormenta do início ao fim da obra, e perante a tamanha perfeição da personagem principal, é porque é que ele é um príncipe apenas quase perfeito? Essa revelação Mª João deixa para as últimas páginas.
“Charles Joseph aprendeu a língua italiana com toda a facilidade e destreza. (...) Por vezes, substituía o estudo da tarde por um passeio a cavalo com o pai. Este ensinava-lhe tudo o que necessitava de saber sobre como caçar um veado ou como se desviar de um javali desembestado. Aprendia também tudo o que deveria saber para viver na corte: precedências, maneiras, modos de falar; seria um representante digno daquela casa. Não desejara ingressar em nenhuma ordem eclesiástica, embora à partida tivesse a garantia de um lugar de destaque em qualquer uma: um príncipe não deixaria de ser um bispo, ou um arcebispo, de alguma diocese importante. Não era esse, porém, o caminho que lhe estava destinado. Preferiu a carreira militar e as Letras, que eram a sua verdadeira paixão. Passava horas infindas a ler e a meditar sobre o que lia. As velas apagavam-se de noite e ele voltava a acender mais uma, e mais uma, até deixar cair a cabeça de exaustão. Tudo lhe interessava, desde a história às ciências, desde a religião à física. (...)
Sempre que necessário, deixava tudo isto para trás. Sabia quais eram as suas prioridades e não pretendia arruinar a vida em demanda do prazer puro. Haveria, certamente, outras etapas da sua existência em que poderia desfrutar dos frutos proibidos e de tudo o que eles apresentavam de sumarento e agradável. Assim, em menos de três anos, defendeu as suas públicas conclusões com aplauso de todos.”
“- Marianita – disse o príncipe depois de um silêncio um pouco longo, olhando fixo as labaredas que as achas da fogueira lançavam no ar.
- Sim?
- Quero que saibas que vos amei. – Voltou para ela o olhar marejado de lágrimas e, depois de engolir em seco, com algum esforço continuou: - No início, era um sentimento paternal. Só poderia sê-lo, senhora! Vós éreis uma catraia! Linda catraia, vos digo eu! Mas a vossa forma de agir e de pensar, depois de crescerdes, e todas as vossas atitudes que eu observei ao longo destes anos fizeram com que me fosse penoso separar-me de vós. O que é isso, senão amor? – De vez em quando olhava pelo canto do olho para ela, tentando perceber que reacção teria. – Agora, que estou a morrer, é que vos digo isto… Deveria tê-lo dito há muito mais tempo. Mas não fui capaz. Pensava que vos queria como a uma filha, agarrei-me a esse pensamento e nunca desejei pensar nele. Nunca pensei que pudesse ser outra coisa.
Quando olhou para D. Mariana, ela vertia grossas lágrimas.
- Devíeis, sim! Devíeis tê-lo dito há muito mais tempo, senhor! – exclamou baixinho.
Eram lágrimas de cansaço e de amargura por todos os anos em que não o soubera. Eram lágrimas de saudade por todas as ocasiões em que desejara sentir que ele era todo seu, e não o sentira. Saudade imensa e intensa de todos esses momentos que dão ânimo para prosseguir com a vida, para saber que se está no caminho certo, sem medos e sem peias e com alguém a apoiar. (…) Quantas vezes ansiara por aquelas palavras tão simples mas tão difíceis de pronunciar quando não são sentidas do fundo do coração? Ela amara-o, idolatrara-o, considerara-o o mais imponente, nobre e ilustre dos homens que conhecera. Tivera algumas desilusões, claro, quem não as tem? Momentos em que ele não fizera o que ela pensava que deveria ser feito, ou momentos em que a ignorara… Mesmo depois de conhecer outras cortes, outros homens, D. Mariana Luísa não mudara a sua opinião, nem o seu modo de sentir em relação a Charles Joseph. Agora ele, no fim da sua vida, vinha confirmar uma ilusão que ela sempre tivera. Durante toda a sua vida, pensara que o amor dele não era mais do que uma ilusão. No final, agora tão próximo, em que a morte viria resgatá-lo, levá-lo e colhê-lo, como a uma espiga que ondula ao vento e é cortada pela foice acerada, agora, no final da vida dele, quando ela já não tinha tempo para desfrutar plenamente desse amor, ele revelava-lhe que essa ilusão era, afinal, a verdade! Que ironia!”
Maria João da Câmara in Um Príncipe Quase Perfeito