Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

 

“- Perdoar-me-ão vossas excelências – interrompeu Charles -, mas se vamos falar em natureza e em beleza, teremos de falar sobre a mulher! (…)
- Mas há alguma beleza na mulher?
- Meus senhores – disse Charles colocando o mais afável sorriso nos lábios de que era capaz -, então não há mulheres tão belas que nos fazem virar a face quando passam? Não há mulheres que, com um simples olhar, fazem com que um homem deseje morrer por elas? Não há? Então, temos de admitir que há beleza na mulher; mas de que serve essa beleza, senhores, quando não é acompanhada de discrição e bom senso?”
Maria João da Câmara in Um Príncipe Quase Perfeito


publicado por Dreamfinder às 10:10
Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Para variar um pouco, hoje sugiro um belíssimo romance histórico:

 

Um Príncipe Quase Perfeito

Maria João da Câmara

(Sopa de Letras)

 

 

A história leva-nos até ao século XVII. Charles Joseph é o príncipe que qualquer mulher poderia desejar. Nobre e sensato, bonito e charmoso, marca a diferença entre homens daquela época pelo respeito e admiração que nutre pelas mulheres, pela forma como as trata, como as ama.

O príncipe flamengo casa-se em Lisboa com a filha do marquês de Arronches, D. Mariana. Rapidamente ganha prestígio e fama, sendo muito admirado por todos em Lisboa. Tudo parece correr maravilhosamente quando um misterioso acontecimento na corte vienense vai mudar para sempre a vida de Charles e da encantadora D. Mariana.

O livro é envolvente e cativante, pintando um verdadeiro quadro da sociedade daquela época. A única coisa que nos atormenta do início ao fim da obra, e perante a tamanha perfeição da personagem principal, é porque é que ele é um príncipe apenas quase perfeito? Essa revelação Mª João deixa para as últimas páginas.

 

“Charles Joseph aprendeu a língua italiana com toda a facilidade e destreza. (...) Por vezes, substituía o estudo da tarde por um passeio a cavalo com o pai. Este ensinava-lhe tudo o que necessitava de saber sobre como caçar um veado ou como se desviar de um javali desembestado. Aprendia também tudo o que deveria saber para viver na corte: precedências, maneiras, modos de falar; seria um representante digno daquela casa. Não desejara ingressar em nenhuma ordem eclesiástica, embora à partida tivesse a garantia de um lugar de destaque em qualquer uma: um príncipe não deixaria de ser um bispo, ou um arcebispo, de alguma diocese importante. Não era esse, porém, o caminho que lhe estava destinado. Preferiu a carreira militar e as Letras, que eram a sua verdadeira paixão. Passava horas infindas a ler e a meditar sobre o que lia. As velas apagavam-se de noite e ele voltava a acender mais uma, e mais uma, até deixar cair a cabeça de exaustão. Tudo lhe interessava, desde a história às ciências, desde a religião à física. (...)

Sempre que necessário, deixava tudo isto para trás. Sabia quais eram as suas prioridades e não pretendia arruinar a vida em demanda do prazer puro. Haveria, certamente, outras etapas da sua existência em que poderia desfrutar dos frutos proibidos e de tudo o que eles apresentavam de sumarento e agradável. Assim, em menos de três anos, defendeu as suas públicas conclusões com aplauso de todos.”

 



publicado por Dreamfinder às 10:53
Terça-feira, 10 de Julho de 2007

“- Marianita – disse o príncipe depois de um silêncio um pouco longo, olhando fixo as labaredas que as achas da fogueira lançavam no ar.

- Sim?

- Quero que saibas que vos amei. – Voltou para ela o olhar marejado de lágrimas e, depois de engolir em seco, com algum esforço continuou: - No início, era um sentimento paternal. Só poderia sê-lo, senhora! Vós éreis uma catraia! Linda catraia, vos digo eu! Mas a vossa forma de agir e de pensar, depois de crescerdes, e todas as vossas atitudes que eu observei ao longo destes anos fizeram com que me fosse penoso separar-me de vós. O que é isso, senão amor? – De vez em quando olhava pelo canto do olho para ela, tentando perceber que reacção teria. – Agora, que estou a morrer, é que vos digo isto… Deveria tê-lo dito há muito mais tempo. Mas não fui capaz. Pensava que vos queria como a uma filha, agarrei-me a esse pensamento e nunca desejei pensar nele. Nunca pensei que pudesse ser outra coisa.

Quando olhou para D. Mariana, ela vertia grossas lágrimas.

- Devíeis, sim! Devíeis tê-lo dito há muito mais tempo, senhor! – exclamou baixinho.

Eram lágrimas de cansaço e de amargura por todos os anos em que não o soubera. Eram lágrimas de saudade por todas as ocasiões em que desejara sentir que ele era todo seu, e não o sentira. Saudade imensa e intensa de todos esses momentos que dão ânimo para prosseguir com a vida, para saber que se está no caminho certo, sem medos e sem peias e com alguém a apoiar. (…) Quantas vezes ansiara por aquelas palavras tão simples mas tão difíceis de pronunciar quando não são sentidas do fundo do coração? Ela amara-o, idolatrara-o, considerara-o o mais imponente, nobre e ilustre dos homens que conhecera. Tivera algumas desilusões, claro, quem não as tem? Momentos em que ele não fizera o que ela pensava que deveria ser feito, ou momentos em que a ignorara… Mesmo depois de conhecer outras cortes, outros homens, D. Mariana Luísa não mudara a sua opinião, nem o seu modo de sentir em relação a Charles Joseph. Agora ele, no fim da sua vida, vinha confirmar uma ilusão que ela sempre tivera. Durante toda a sua vida, pensara que o amor dele não era mais do que uma ilusão. No final, agora tão próximo, em que a morte viria resgatá-lo, levá-lo e colhê-lo, como a uma espiga que ondula ao vento e é cortada pela foice acerada, agora, no final da vida dele, quando ela já não tinha tempo para desfrutar plenamente desse amor, ele revelava-lhe que essa ilusão era, afinal, a verdade! Que ironia!”

Maria João da Câmara in Um Príncipe Quase Perfeito



publicado por Dreamfinder às 19:16
“Um leitor é sempre um estudante do mundo.” Deborah Smith
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